O dia (ou altura) em que um bebé inicia a alimentação é para muitos pais confuso, excitante e, por vezes, assustador. Existem imensas crenças enraizadas na nossa cultura que nos fazem crer no que é certo e que muitas vezes não corresponde aquilo que a nossa intuição nos diz. Uma delas, muito forte, é que os bebés (e as crianças) não são capazes de fazer as coisas e tem de ser o adulto a mostrar-lhes e fazer por elas. A introdução alimentar dita tradicional, que é o que está estipulado e nos é quase imposto a fazer por família e profissionais de saúde, pressupõe que o bebé não sabe comer, não tem capacidades de se auto-alimentar nem sabe aquilo de que precisa. Daí ser extremamente faseada, à base de purés e frutas, dada pela mão do adulto e nas quantidades impostas muitas vezes pelo pediatra.

Em 2005, Gill Rapley (uma enfermeira-parteira inglesa) propôs pela primeira vez o conceito de Baby-led-weaning ou, em português, Desmame guiado pelo bebé. É um conceito verdadeiramente revolucionário no sentido em que o bebé é quem controla e guia todo o processo, sendo uma figura ativa e central, em que a auto-alimentação é incentivada desde o início. É por isso muito mais do que apenas oferecer alimentos sólidos. É acreditar que o bebé consegue aprender a comer, consegue regular-se, consegue dizer-nos que está saciado, consegue aprender a manusear os talheres. É um conceito brilhante, mas que na prática traz consigo imensos desafios dos quais vamos falar aqui um pouco.

Interessa reforçar a ideia de que o leite (materno ou fórmula) deve ser o principal alimento do bebé até completar 1 ano de vida. Isto quer dizer que todos os nutrientes e calorias que o bebé necessita para se desenvolver e crescer devem vir do leite. Dos 6 meses (ou 4 nalguns casos) até aos 12 meses, os alimentos que o bebé ingere e experimenta servem o propósito de lhe proporcionar um primeiro contacto com a comida. Serve para ele sentir o sabor, a textura, o cheiro, para brincar e para ir percebendo que também consegue ficar saciado com outro tipo de alimentos. Serve também para o bebé contactar com o maior número de alimentos e preparados de maneira diferentes. Dizemos que este período de experimentação corresponde a uma “janela de oportunidade” para criar as bases para uma relação positiva com a comida. A introdução alimentar através do BLW começa quando o bebé está preparado e não quando o pediatra decide.

Como saber que o bebé está preparado?

– Consegue sentar-se erguido com mínimo apoio, sem tombar nem perder a força nas costas;

– Desapareceu o reflexo de protusão da língua (é um reflexo protetor que indica que o bebé ainda só está apto para ingerir leite). Conseguimos ver que o reflexo desapareceu quando encostamos uma colher na língua do bebé e ela não a mete para fora da boca;

– Mostra interesse pelos alimentos e quer agarrar no prato, talheres e individuais;

– Existe coordenação olhos-mão-boca. O bebé consegue olhar para o alimento, pegar nele e levá-lo à boca.

Estar atento a estes sinais é a forma mais correta de saber quando iniciar a alimentação complementar. Isto normalmente acontece por volta dos 6 meses. Em alguns bebés pode acontecer mais cedo e noutros mais tarde e é importante respeitar o seu tempo.

Quais são os desafios e dificuldades do BLW?

O BLW não é nada mais, nada menos, do que aproveitar ao máximo esta janela e proporcionar a liberdade que o bebé precisa para aprender a comer. Esta liberdade não é muitas vezes compatível com a vida e disponibilidade do adulto. O BLW é uma abordagem culturalmente não muito bem vista na medida em que é um processo lento e sujo. As principais dificuldades do BLW, que também são as razões porque muitos cuidadores não adotam este método, são:

– é sujo! O bebé vai ter a oportunidade de manusear os alimentos e vai levar tempo a fazê-lo com destreza e sem sujar. Quem opta pelo BLW tem de estar mentalmente preparado para tudo ficar sujo. Bebé, cadeira, roupa, chão, paredes. Esta é das maiores dificuldades do BLW. 

– é lento. O bebé está em exploração e vai levar meses a perceber que a comida sacia e que não é só para brincar. Pode acontecer que nas primeiras vezes que tiver comida à sua frente nem a leve à boca, apenas queira explorar com as mãos e deitar ao chão. 

– é confuso. Os pais e cuidadores querem ter a certeza que o bebé fica bem nutrido e saciado e com o BLW não dá para ter essa certeza. Porém, temos de ter sempre em mente que desde que o bebé beba leite na quantidade necessária, está tudo certo.

– não é culturalmente aceite. Num restaurante ou em casa de família e amigos que não estejam a par do conceito, pode haver muitos olhares julgadores. Há também uma ideia generalizada que a criança tem de se adaptar ao adulto e não ao contrário.

– por vezes é assustador. Há a ideia errada de que oferecer pedaços sólidos aumenta o risco de engasgamento. Isto vem do facto de que existe mais o reflexo GAG quando se faz BLW. O reflexo GAG é um reflexo protetor que, apesar de parecer que o bebé se vai engasgar, serve exatamente para isso não acontecer. Há que manter a calma e confiar. E lembrar que o bebé só aprender a mastigar, mastigando.

– a refeição é mais demorada. É encarado como um momento de exploração e brincadeira e não uma coisa a despachar. Muitos adultos não têm tempo para prolongar estes momentos.

– há desperdício. Muita comida cai no chão e muita comida fica no prato. Faz parte do processo de auto-regulação.

Quais são as vantagens do BLW?

Apesar das dificuldades serem muitas, as vantagens fazem este esforço valer a pena. Quantas pessoas não conhecemos que nos dizem “O meu filho era um terror para comer! Tinha de ser sempre à força e fazia birra!”. É curioso tentarmos perceber nesses casos como foi feita a introdução alimentar. Há bebés que gostam de comer mesmo com a introdução alimentar tradicional, mas há muitos que desenvolvem uma aversão à comida e um sentimento de repulsa que muitas vezes transportam consigo para a vida adulta. Imaginem se neste momento, como adultos, nunca tivessem comido, e se  na vossa primeira experiência à mesa vos prendessem numa cadeira e dessem comida (muitas vezes pouco saborosa ou desinteressante) contra a vossa vontade. Só de imaginar, já causa repulsa. As vantagens do BLW são as seguintes:

– o bebé desenvolve uma boa relação com a comida. A comida é vista realmente como um prazer e uma descoberta. Normalmente os bebés que iniciam a introdução alimentar através do BLW gostam mais de comer;

– há menos risco de desenvolver algumas doenças na vida adulta. O bebé aprende a regular-se e a parar quando está saciado e isto diminui o risco de obesidade infantil e doenças metabólicas na vida adulta;

– a longo prazo é mais fácil. No início é realmente um caos mas, passado algum tempo, o bebé torna-se autónomo muito mais cedo e a refeição familiar torna-se mais fácil, não sendo necessário fazer “a comida do bebé”;

– é um prazer e um orgulho vê-los a comer tão bem e a desenvolver autonomia tão rápido. É um momento lindo de brincadeira e super agradável;

– o bebé desenvolve a sua confiança e fica contente com as suas descobertas e conquistas;

– apesar do medo, o BLW diminui o risco de engasgamento a longo prazo. O bebé aprende a mastigar melhor e ao seu ritmo, o que contribui para o desenvolvimento das capacidades motoras.

Independentemente da abordagem que cada pessoa escolher, o que é realmente importante é respeitar a vontade do bebé e acabar com as estratégias para os obrigar a comer (quem nunca viu ou fez o aviãozinho para comer?). O bebé é uma pessoa em desenvolvimento, a aprender sobre o mundo que o rodeia. Precisa de tempo, respeito, paciência e liberdade. Cabe ao adulto apenas proporcionar o ambiente favorável a que isso aconteça, confiar nele e desfrutar da sua felicidade.

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